Plataforma de Pecuária de Precisão — Bosch
Product Design • Pesquisa de UX • Pesquisa de Campo • Service Design • B2B • IoT • Agritech
Bosch Brasil (via INSITUM) · Design Researcher & UX Designer
Como uma plataforma digital criada para o confinamento foi testada — e reinventada — para o pasto extensivo, onde vive 95% do rebanho bovino brasileiro. A pesquisa de campo derrubou a hipótese inicial de negócio e transformou o produto em apoio à decisão do pecuarista.
O Contexto
No Brasil, o gado de corte a pasto é criado em dois regimes. A Bosch Brasil tinha uma solução digital para o menor deles: o confinamento, em que o rebanho fica numa área fechada com cocho, balança e um ponto de passagem obrigatório. Brincos eletrônicos, antenas, balança e uma plataforma identificavam cada animal e registravam seu peso a cada passagem.
Funcionava — mas atendia só 5% do mercado. Na pecuária extensiva, onde vive 95% do rebanho, o gado circula por piquetes grandes e um animal só é visto quando alguém sai a cavalo para procurá-lo. A Bosch queria saber se o mesmo conjunto poderia atravessar de um sistema para o outro.

Resumo
A pesquisa de campo derrubou a hipótese inicial de negócio — a contagem automática de animais — e transformou o produto em apoio à decisão do pecuarista: animais desaparecidos, peso diário e rodízio de pasto, quase em tempo real.
O Desafio
Testar se a solução da Bosch para o confinamento funciona no pasto extensivo, encontrar novas frentes para a pecuária de precisão e desenhar a experiência digital para o que o campo validasse.
Meu Papel
Atuei como Design Researcher & UX Designer no time da INSITUM — liderando a pesquisa de campo com pecuaristas e funcionários das fazendas, sintetizando os achados, cocriando soluções e desenhando o protótipo, ao lado de Murilo Gomes (líder do projeto) e Vinicius Dourado (UI design).
Minha Abordagem
O projeto partiu de uma hipótese de negócio: o valor está na contagem automática de animais. Antes de desenhar qualquer tela, levei essa hipótese para as fazendas.
Shadowing e entrevistas em profundidade com pecuaristas, gerentes e vaqueiros mostraram como o rebanho é realmente acompanhado no pasto extensivo — a cavalo, no olho, piquete por piquete.
O que precisamos aprender em campo antes de decidir o que construir?
Perguntas práticas para planejar a pesquisa de campo
- Quem cuida do rebanho no dia a dia?
- Como o pecuarista sabe que um animal sumiu?
- Como se decidem os piquetes e o rodízio?
- Por onde todo o rebanho passa todo dia?
- Como o peso é medido hoje?
- Quando um animal está pronto para venda?
- Como é um dia típico de um vaqueiro?
- Contar gado é uma dor real?
- O que o pecuarista confere primeiro?
- Como são a conectividade e a energia no campo?
- Quanto custa um animal perdido para a operação?
- Pelo que o pecuarista pagaria?
O projeto foi do campo ao pixel em três movimentos:
Pesquisa de campo: acompanhar a rotina da fazenda e ouvir quem trabalha com o rebanho.
Síntese: organizar o que o campo mostrou e separar a dor real da dor presumida.
Cocriação, prototipação e testes em campo: desenhar soluções com os pecuaristas, torná-las navegáveis e levá-las de volta ao campo antes de finalizar a interface.
Fase 1 — Pesquisa de campo e shadowing
Acompanhei a rotina de fazendas de pasto extensivo: os piquetes, o rodízio, o bebedouro onde o rebanho se reúne e os vaqueiros que saem a cavalo para olhar o gado. Shadowing e entrevistas em profundidade com pecuaristas e funcionários registraram como o rebanho é realmente acompanhado.
As etapas 01 e 02 mudaram o projeto: o que a hipótese de negócio chamava de dor, o campo mostrou que não era.
Shadowing com pecuaristas e funcionários das fazendas
Observação presencial da rotina em fazendas de pasto extensivo: como o rebanho circula entre piquetes, como os vaqueiros conferem o gado, como o peso é medido no tronco e por onde todo o rebanho passa todo dia. Entrevistas em profundidade capturaram o porquê de cada decisão.
Mapeando como o rebanho é acompanhado
A pecuária extensiva tem lógica própria: piquetes, rodízio e um único ponto pelo qual todo animal passa — o corredor que liga o pasto ao bebedouro. Todo animal precisa beber, e esse corredor virou a chave da solução.
O trabalho de campo derrubou a hipótese — e entregou uma melhor.
No Brasil, o vaqueiro é mão de obra barata, então trocá-lo pela contagem automática é uma proposta de valor fraca. O que custa dinheiro é o animal que some — doente, morto ou roubado — e fica invisível por dias.
O pecuarista é avesso a risco. Ele não compra redução de mão de obra — compra previsibilidade sobre um ativo que anda solto no pasto.
Aprendizados do trabalho de campo
- Contar gado não é uma dor relevante para o pecuarista.
- Vaqueiro é mão de obra barata — a automação não se paga cortando equipe.
- Um animal só é visto quando alguém sai a cavalo para procurar.
- Animais desaparecidos ficam invisíveis por dias — doença, morte ou roubo.
- O que importa é qual animal sumiu, quando e de qual pasto.
- Todo animal precisa beber: o bebedouro reúne o rebanho inteiro.
- O corredor do bebedouro é o único lugar por onde o rebanho passa um a um.
- O rodízio é decidido no olho, pela condição do capim.
- Acompanhar a condição do pasto define a hora certa do rodízio.
- O peso decide quando vender para o confinamento.
- O peso é medido com fita no tronco: manual, repetitivo e lento.
- O pecuarista quer separar rápido os animais que chegaram ao peso ideal.
- Informação precisa é o que tranquiliza o pecuarista de que o negócio vai bem.
- O pecuarista é avesso a risco: compra previsibilidade, não redução de mão de obra.
- Não há energia elétrica no campo: o hardware precisa funcionar com energia solar.
- O mesmo hardware do confinamento pode funcionar — em outro lugar.
Resumo dos aprendizados
O produto deixou de contar cabeças e passou a apoiar decisões. A contagem virou o sensor: o valor está no pecuarista saber, quase em tempo real, o que acontece com o rebanho e com o capim.
Fase 2 — Síntese e cocriação
Organizar o que o campo mostrou separou a dor real da dor suposta. Surgiram três frentes: saber qual animal sumiu — quando e de qual pasto; acompanhar o peso para achar o melhor momento de venda; e gerenciar a condição do pasto para fazer o rodízio.
Desenhei as primeiras hipóteses de solução junto com pecuaristas, funcionários e stakeholders da Bosch. A decisão-chave foi manter o mesmo conjunto de hardware — brinco RFID, antena, balança e plataforma — e reposicioná-lo no corredor do bebedouro, por onde todo o rebanho passa um a um, com energia solar e sem manejo extra.
Em seguida, as telas viraram um protótipo navegável para poderem ser testadas de verdade.
Sessões de cocriação com pecuaristas e especialistas da Bosch
Com os achados organizados, cocriamos soluções com pecuaristas, funcionários das fazendas e os times de produto e engenharia da Bosch. Juntos priorizamos os alertas de animais desaparecidos, o peso diário e o rodízio de pasto — e esboçamos os fluxos que viraram os primeiros protótipos.
O protótipo foi construído sobre a base visual da plataforma de confinamento da Bosch e adaptado ao contexto extensivo. Ao fim da prototipação, levamos o protótipo de volta às fazendas para testes com pecuaristas e vaqueiros.
Fase 3 — Ciclos de design e validação em campo
Trabalho em ciclos com o time de produto da Bosch: prototipação, detalhamento da interface e testes com pecuaristas e funcionários em campo — para validar os fluxos de piquetes, animais e alertas antes de finalizar a interface.
Design System
Para manter consistentes os produtos de confinamento e de pasto, a interface foi construída sobre um design system compartilhado: fundações de cor e tipografia, botões, formulários, exibição de dados, navegação, gráficos e um conjunto de ícones de pecuária — reutilizados nas duas plataformas.
Design de UI
As telas de alta fidelidade cobrem os dois produtos: a visão do confinamento, com ganho médio diário, alertas urgentes, fichas de lote e de animal; e a visão do pasto, com o dashboard de piquetes, rodízio, qualidade do pasto, lista de animais e histórico de notificações.

CONFINAMENTO — VISÃO DA FAZENDA, GANHO MÉDIO DIÁRIO

CONFINAMENTO — ALERTAS URGENTES

CONFINAMENTO — PAINEL ESTRATÉGICO

CONFINAMENTO — DETALHE DO LOTE, DESEMPENHO

CONFINAMENTO — FICHA DO ANIMAL (CRÍTICO)

CONFINAMENTO — QUADRO DE TAREFAS DO MANEJO

PASTO — DASHBOARD DE GESTÃO DE PIQUETES

PASTO — PÁGINA DO MÓDULO, PIQUETES E RODÍZIO

PASTO — DASHBOARD E LISTA DE ANIMAIS

PASTO — DETALHE DO ANIMAL

PASTO — HISTÓRICO DE NOTIFICAÇÕES
Testes em campo com pecuaristas e funcionários
Voltamos às fazendas para testar o protótipo com pecuaristas e vaqueiros. O feedback confirmou a direção: o rastreamento de animais desaparecidos e a qualidade do pasto tiveram a reação mais positiva, e as telas foram refinadas a partir disso.
A pergunta do pecuarista mudou. Saiu “quantos animais tem aqui?” e entrou “o que está acontecendo com o rebanho e com o pasto?”.
Contar gado deixou de ser o produto — virou o sensor. O produto passou a ser apoio à decisão, quase em tempo real, sobre um ativo que anda solto no pasto.
Resultados
O mesmo hardware. Uma pergunta diferente. Um produto diferente.
A hipótese inicial da Bosch — a contagem automática de animais — foi descartada com evidências de campo. O produto foi reposicionado como apoio à decisão do pecuarista, voltado ao sistema extensivo, onde vive 95% do rebanho bovino brasileiro.
A plataforma final acompanha o que o pecuarista não conseguia ver com facilidade: com que frequência cada animal vai ao bebedouro, seu peso real a cada dia e quem chegou ao peso ideal de venda, há quanto tempo o rebanho está em cada piquete, um alerta quando um animal deixa de aparecer e a qualidade do pasto para acertar o rodízio.
Aprendizado
A hipótese mais óbvia costuma estar errada. A contagem automática parecia o produto natural para um sistema de rastreamento de gado — o campo mostrou que o valor estava em ajudar o pecuarista a decidir, algo que ninguém teria encontrado sentado numa sala de reunião.

























